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Poema a Israel I Chama-me,
lua de Israel, grande lua de Israel,interminável
laranja aberta sobre o mundo. O
jumento, o cântaro, o feixe de lenhae
o peregrino estarão dentro de ti, varridos pela
imensidão de uma luz cujo rostoé
estar em toda a parte, e em parte nenhuma. II Oh!
Quem poderá sentir, outra vez, a carnetão
cheia de opalas, tão misteriosamente atravessada por
uma matilha de meteoros, todos eles transformadosem
fios sutilíssimos de tungstênio liquefeito. III Quero
falar, mil vezes nesta noite, de tua luaque
o asfalto se recusava a massacrar sob os pneus, porque
lá fora, nalguma parte, onde as ovelhastinham
desvestido, de súbito, suas lãs, uma
brisa de agulhas reduzidas a reticênciasembarcava
nas espáduas de tuas mulheres nuas. IV Chama-me,
lua de Israel, grande lua de Israel:para
ti darei meu coração que tropeçou numa
de tuas colinas, por sobre as quais jorravam,no
silêncio da noite, os perdigotos das metralhadoras! V Quem
poderá, também engolir pelas pupilasa
espessura musical do lago de Tiberíades, em
cujas orlas o verde, o teu verde sofrido,pela
primeira vez, perdera suas sentinelas? Ah,
como são belos os teus recantos de pedra,as
tuas palmas alegremente sensuais, a que o sol violento
do meio dia empresta a lixalânguida
de um tabaco que jamais há de existir! VI Chama-me,
sol de Israel, grande sol de Israel,ruidoso
badalo sacudido dentro dos nervos, para
que a areia amarela e os figos implacáveisespremam
sobre os beiços uma mistura estranha de
linho de odaliscas e de ranger de rodas,de
preguiça madura e de orgulho esmerilhado. VII Acolá,
na planície dolorosamente acordada,as
frutas cítricas agridem a impaciência dos canos, através
dos quais a alma da terra anestesiatoda
uma espera infinita de carnes destroçadas. Sim,
há um ghetto em cada romã que o turistacolhe,
pela manhã (ah, sol de Israel, sol de Israel), e
Edith Stein passeia em Caná, cujo vinhoexplode
em sabor de chaminés e cinzas. VIII Subimos
até à inconsciência do monte Tabor,onde
as lagartixas exercem a pirotécnica de
suas astúcias de bicho que decifrou nas ruínaso
orvalho empedernido de uma História sem estacas. IX Shalom,
monotonia de calor e vigília,Shalom,
ó Kibbutz de Davi onde as flores exigem
a psicanálise das coisas que aí estãotorturadas
de beleza e de sabedoria ao ar livre. Deixa-me
ir de novo a Lavi, na tua Sinagogaque
me varou o espírito como uma flecha ungida de
óleo e serenidade, de resina de ciprestese
de chumbo derretido nas veias de tua Diáspora. X Tenho
uma dívida de alma para ti, Mar Morto,e
para ti Jericó, velhíssima entre as mulheres que
me cozeste os miolos com teus ferrões de abelhafazedora
de mel e de rosas, rosas, que são rosas. . . Lá
está o teu sol, ó sol de Israel, sol de Israel,a
tua tâmara, o teu alcômoro, a tua fêmea que mira o
corpo do homem como uma raiz com urgência de trevae
quer, com a treva, a força centrífuga da liberdade. XI Jerusalém,
entorna-me teus vales nas narinas,mete-me
aos ombros o peso mortal de tuas colinas: que
importa? Amo a cintilação insuportável de tuas casas,a
mentirosa comunhão de tuas mesquitas e almotolias, o
teu esgar contemporâneo de relojoeiro erudito,a
tua necessidade de ciência para esmagar a serpente. Amo-te!
Amo-te, cidade da Paz traída,e
vejo em ti Javé a pisar o coração dos homens, como
um vinhateiro pisa as uvas no lagar,como
Einstein pisaria a sua própria Teoria. XII Chama-me,
lua de Israel, grande sol de Israel:ao
teu ventre voltaremos, em doze tribos vastíssimas, quando
os arados dançarem nas mãos dos homense
em suas lâminas se refletirem os rostos de suas bem-amadas! Diremos:
volta, ó Sulamita, com o perfume da tua boca,com
o odor de tuas maçãs, com os teus cabelos e teus quadris, porque
o tempo do amor já chegou aos nossos pésa
subir e a descer pelos celeiros do mundo. Diremos:
fomos feitos para o amor, e não para o ódio,como
os tetos que respiraram, pela primeira vez, em Degania, e
queremos que um pássaro cante na alma de cada homem,porque
morrer é triste, e a vida renasce cada manhã. (Armindo
Trevisan) |